Acompanhamento profissional e apoio emocional ajudam na prevenção ao suicídio

Por Thibério Rodrigues - em 628

www.joaopessoa.pb.gov.br

Discutir sobre suicídio ainda é considerado um tabu nos mais diversos ambientes sociais, mas os fatores de risco que podem levar uma pessoa a tentar tirar a própria vida são cada vez mais recorrentes no dia a dia da população. Segundo especialistas em saúde mental, debater o assunto é fundamental para combater este problema que tem acometido homens e mulheres de diversas faixas etárias.

Dados da Vigilância Epidemiológica (Viep) da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de João Pessoa mostram que no período de 2008 até 2017 foram registrados 248 casos de suicídio de pessoas residentes na Capital. Deste total, 81% (201) são pessoas do sexo masculino e outros 19% (47) são do sexo feminino.

Para o psiquiatra da Rede Municipal de Saúde, César Rathke, o número maior de homens em relação às mulheres está relacionado ao papel que a sociedade impõe à figura masculina. “A mulher sofre com o machismo, mas o homem pode sofrer até mais, porque no pensamento machista o homem não pode fraquejar. Então ele não busca ajuda pra enfrentar o sofrimento. Já as mulheres possuem redes mais fortes de contato. As amigas se ajudam, se aconselham e uma até leva a outra para uma consulta com o psiquiatra. Mas entre os homens isso dificilmente acontece”.

Os registros apontam ainda que a faixa etária em que os casos de suicídio são mais frequentes é de 30 até 39 anos. Nos últimos 10 anos foram registrados 59 casos nesta faixa de idade, ou seja, 24% do total. Entre as pessoas de 20 até 29 anos de idade foram 55 casos de suicídio neste período na Capital.

Os números também chamam atenção em relação à população idosa, pois foram registrados 44 casos de pessoas que se suicidaram com idade acima dos 60 anos, o que corresponde a 18% do total. “Muitas vezes é causado pela frustração de não ter realizado todos os planos idealizados na juventude e não saber lidar bem com isso” comentou o médico.

Entre os adolescentes o número é menor, mas ainda assim foram registrados 13 casos na faixa dos 10 até 19 anos de idade. O psiquiatra faz um alerta aos pais e responsáveis para observarem o comportamento de seus filhos. “Nós precisamos ter a noção de que crianças e adolescentes também se matam”.

“Alteração de humor, falta de atenção, queda no desenvolvimento escolar, desinteresse nas relações sociais, perda de energia física e mental, distúrbio de sono ou de peso e a insatisfação consigo mesmo, achando que nada que faz dá certo, são fatores que devemos prestar atenção”, alertou o psiquiatra.

Fatores de risco e prevenção – De acordo com César Rathke, o suicídio pode ser prevenido e por isso é fundamental abordar a saúde mental como parte essencial da qualidade de vida. “O suicídio resulta da interação entre fatores psicológicos e biológicos e costuma ser um desfecho trágico do acúmulo de diversos motivos”, afirmou.

Alguns dos fatores citados pelo psiquiatra são: a tentativa prévia de tirar a própria vida, depressão, transtorno bipolar, vício em drogas, transtornos de personalidade, desespero, desamparo, impulsividade, idade, gênero, conflitos de identidade sexual, maus tratos, abuso físico e sexual, diagnóstico de doenças graves, entre outros.

O médico também destaca formas de prevenção ao suicídio, a exemplo de: identificação dos fatores de risco, acompanhamento adequado com psiquiatra e psicólogo, mudanças no estilo de vida e desenvolvimento de habilidades. “É muito importante trabalhar a autoestima, ter suporte familiar, construir laços sociais, se sentir bem no trabalho, ter boa capacidade de adaptação e, principalmente, ter a capacidade de enfrentar adversidades”, explicou.

Serviço – A Prefeitura Municipal de João Pessoa (PMJP) oferece diversos serviços para as pessoas que buscam acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Este trabalho é realizado nas policlínicas do município, localizadas nos bairros de Tambaú, Mandacaru, Jaguaribe, Cristo e Mangabeira.

Já as pessoas com transtornos mentais persistentes ou que fazem uso abusivo de substâncias psicoativas são acompanhadas em algum dos quatro Centros de Atenção Psicossocial (Caps) da Rede Municipal de Saúde. Esses serviços substituem a internação psiquiátrica, buscando reinserção social através do tratamento. Além dos centros, a Rede de Atenção Psicossocial é composta por uma Unidade de Acolhimento Infantil (UAI), Pronto Atendimento em Saúde Mental (Pasm), duas residências terapêuticas e leitos em hospitais gerais.

Para ter acesso ao tratamento psiquiátrico, o usuário deve procurar primeiramente sua Unidade de Saúde da Família (USF), onde receberá o encaminhamento para um dos serviços especializados. Já para o acompanhamento psicológico, o usuário pode procurar diretamente uma das cinco policlínicas.

Setembro Amarelo e CVV – É durante o mês de setembro que são reforçadas as campanhas de conscientização sobre a prevenção do suicídio. Um dos principais mobilizadores da Campanha Setembro Amarelo é o Centro de Valorização da Vida (CVV), uma associação civil sem fins lucrativos que, em João Pessoa, atua em parceria com a SMS, prestando serviço voluntário, gratuito e sigiloso de apoio emocional e prevenção ao suicídio.

“Ter com quem conversar é fundamental. A partir do momento em que uma pessoa que está cheia de problemas e angustiada conversa com alguém, a tendência é que aquela pessoa melhore. Esse é o papel do CVV e de seus voluntários, ofertar um ombro amigo, uma escuta sem preconceitos e julgamentos, um apoio emocional a quem tanto está precisando”, explica Aparecida Melo, porta-voz do CVV na Capital.

O CVV realiza atendimentos, através de voluntários, pelo telefone 188 (24 horas), pelo site www.cvv.org.br via chat e e-mail, ou pessoalmente. Em João Pessoa, o CVV fica localizado na Avenida Rui Barbosa, s/n, Torre, anexo ao Centro de Especialidades Odontológicas (CEO). O horário de atendimento é das 14h às 22h, diariamente.