Alunos da EJA conquistam cidadania pela alfabetização

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Nunca é tarde demais para aprender. Que o diga dona Raimunda Pereira da Silva, que no auge dos seus 82 anos, é só alegria. O motivo? As letras, os números e o computador não são mais um mistério na vida dela. O sonho de ler e escrever, que tinha desde menina, só foi realizado há três anos, quando passou a frequentar as aulas do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA), desenvolvido pela Prefeitura de João Pessoa (PMJP) e o Governo Federal. “Gosto demais de estudar. Sento na primeira fila e presto atenção a tudo o que a professora fala. Não perco um dia de aula, só quando estou doente”, disse a aposentada.

E dona Raimunda é mesmo uma das alunas mais presentes e participativas. Carinhosamente chamada de ‘Vó’ por todos os colegas de turma e pelos professores, chega cedo a Escola Municipal de Ensino Fundamental Índio Piragibe, no bairro de Mangabeira VII, uma das 85 escolas da rede municipal participantes do programa que integra cerca de 700 professores neste processo de alfabetização.

Vaidosa, ela revela: “Preparo o jantar dos meus filhos cedo e venho para cá. Quero cada vez mais aprender. É muito bom chegar a um lugar e ler tudo, saber o que é letra e número, saber pegar um ônibus, ir ao mercado. Estou muito feliz, porque além de escrever no caderno, também escrevo no computador”, afirmou.

Aulas de Informática – Dona Raimunda também foi incluída no mundo digital através da programa piloto realizada na escola onde ela estuda. Trata-se do Programa de Apoio ao Ensino e à Pesquisa Científica e Tecnológica em Educação Profissional Integrada à Educação de Jovens e Adultos (Proeja- FIC).

Cidilene de Andrade, assessora pedagógica da EJA ligada à Secretaria de Educação e Cultura (Sedec), explicou que o referido programa é desenvolvido em convênio com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB), antigo Cefet-PB.

“Através do Proeja-FIC o aluno tem a oportunidade de concluir o nível fundamental e ainda ter acesso às aulas de informática, onde ao fim do curso, que tem duração de um ano e seis meses, recebe o certificado. Os instrutores são todos professores do IFPB”, explicou Cidilene.

Matérias – As aulas de informática na Escola Índio Piragibe, que têm 126 alunos matriculados, acontecem nas terças e quintas-feiras, das 18h15 às 19h30, no laboratório da própria instituição de ensino. Após a aula, os alunos seguem para outra sala, onde aprendem português, matemática, ensino religioso, ciências, entre outras matérias. E dona Raimunda, aluna de 82 anos, também participa das aulas de educação física e artes, disciplinas que fazem parte da grade curricular do programa.

A colega de turma de dona Raimunda, a auxiliar de serviços gerais Marta Ferreira da Silva, que mora na mesma rua da idosa, revelou que ao sentir-se cansada devido ao trabalho diário, as vezes pensa em faltar aula. Mas, lá está a disposta Raimunda, a incentiva-la. “Tive que começar a trabalhar cedo e por isso deixei os estudos de lado. Mas hoje, sei da importância que é ter um diploma. Trabalho das seis da manhã às cinco horas da tarde e quando penso em faltar a aula, vejo esse exemplo que é dona Raimunda”, comentou Marta.

Diversidade – Além dos idosos, o programa também é uma oportunidade para pessoas portadoras de necessidades especiais. Só nesta escola no bairro de Mangabeira VII, fundada há nove anos, estão matriculados três deficientes auditivos, dois portadores de Síndrome de Down e um cadeirante. “Nunca tinha frequentado a escola. Aqui, tive meu primeiro contato com as letras e também com o computador. Pretendo agora fazer o curso de engenharia”, planeja Germano Caliele, de 43 anos, que é cadeirante.

A diretora da Escola, professora Francineide Cândido, define a EJA como uma porta de acesso à cidadania. “O ensino e a aprendizagem estão diretamente ligados à conquista da cidadania. Temos aqui adultos que não tiveram a oportunidade de aprender e, hoje, constroem uma nova vida. Acredito muito no ensino público, no poder que ele tem de transformar vidas”, frisou.

‘Salas de filhos’ – Para que as ‘alunas-mães’ não abandonem o curso por não ter com quem deixar as crianças, a Secretaria de Educação municipal criou as ‘Salas de Filhos da EJA’. A experiência é um sucesso. “Por noite cuido de cerca de 20 crianças. Enquanto as mães ou avós estudam, fico com a garotada, aplicando trabalho de arte, lendo ou interagindo através da educação física. Elas estudam e sabem que as crianças estão seguras”, ressaltou a professora Rosangile Soares, responsável por este apoio pedagógico.

Nesse processo de aprendizagem, nada fica no convencional. Para incentivar a leitura e a interpretação, a Escola promove nos próximos dias 29 e 30 de outubro a terceira edição do projeto ‘Chá Literário’, que este ano homenageia o poeta Jessier Quirino. Durante os dois dias, os alunos da Educação de Jovens e Adultos produzem diversos materiais que retratem a vida do personagem escolhido. “É uma maneira de incentivar a leitura e a produção textual. Para se ter ideia, neste evento teremos encenação teatral, jornal mural, tem uma turma que está escrevendo um livro, entre outras atividades. Este ano, um intérprete em libras vai participar, demonstrando como são os ditos populares, tão presentes nos trabalhos de Jessier”, explicou a supervisora escolar Patrícia Santos.

Na sala onde dona Raimunda está matriculada, também frequenta às aulas a dona de casa Suely Maximino, de 34 anos. Ela lembra que tinha vergonha de não saber ler e escrever e se sentia inferior a outras pessoas.

“Minha vida foi muito difícil. Aos sete anos tive que deixar de estudar para cuidar do meu irmão. Quando cresci, fiquei com vergonha de dividir a sala de aula com outras crianças. Foi então que me falaram da EJA e vi aqui a oportunidade de aprender. Quando li minha primeira palavra, a vontade era de sair gritando. Aqui eu encontrei o apoio que precisava”, disse entusiasmada a mãe de dois filhos, que durante anos pedia a ajuda da vizinha para ler as correspondências que recebia.

Após alguns anos frequentando às aulas noturnas, Suely agora é capaz de ensinar o filho de cinco anos na tarefa de casa. “Agora eu sou respeitada e quero ser professora de educação física. Sei que a estrada é longa, mas vou seguir o meu sonho, pois sei que somos todos capazes”.

Proeja – Como forma de incentivar esses sonhos, a Prefeitura de João Pessoa está ampliando o leque de oportunidade aos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Através de um convênio com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB), o Governo Municipal também está ajudando esses estudantes a ingressar no ensino médio.

Trata-se do Proeja, uma parceria que funciona da seguinte maneira: são selecionados os melhores alunos nas matérias de português e matemática, que tenham frequência acima de 75%. Estes são submetidos a um processo seletivo simplificado e quem for aprovado passa a cursar o ensino médio no IFPB.

“Enquanto eles estão matriculados, a Prefeitura de João Pessoa fornece o passe estudantil, material didático e fardamento. Em três anos, este aluno sai com duas formações, que é o ensino médio e o profissionalizante. Atualmente, temos 148 alunos que foram da EJA matriculados no IFPB”, informou Cidilene de Andrade, assessora pedagógica da EJA.

Ampliação – A prefeitura já está caminhando para expandir esta parceria para o ano de 2010, inclusive com o Senai e Senac. Dentro do Proeja-FIC, que já oferece aulas de informática, a Secretaria de Educação tem o projeto de criar ‘Escolas Pólo de Qualificação Profissional’, onde serão oferecidos cursos de mecânica automotiva, eletricista, reprodução gráfica e costura industrial (vestuário).

“Nas escolas serão montados laboratórios e estas instituições fornecem os professores para ministrar as aulas. Sobre os cursos oferecidos, fizemos um levantamento com os próprios alunos para saber o anseio deles. Este projeto será desenvolvido simultaneamente com as aulas convencionais. Ou seja, um dia na semana os estudantes participam dos cursos profissionalizantes, estimulando assim o aprendizado. Ao término, eles terão dois certificados e mais chances de ser incluídos no mercado de trabalho”, destacou a assessora pedagógica.

EJA – A Educação de Jovens e Adultos (EJA) é um programa do governo federal em parceria com as prefeituras e que tem por objetivo desenvolver o ensino fundamental com pessoas acima de 15 anos, garantindo com isso o acesso a todos à educação. Só no município de João Pessoa, o programa tem cerca de 10 mil alunos matriculados que estão cursando os períodos divididos em cinco ciclos, que vão da alfabetização a 8ª série.