Estação Cabo Branco exibe ‘O Rebeliado’, terça-feira

Por - em 46

Uma infância miserável e marcada pelo trabalho escravo nos canaviais, passando pela mendicância na cidade grande e prostituição como travesti, até chegar à conversão religiosa. A trajetória singular de ‘Clóvis’, um negro de 39 anos de idade, é o fio condutor para abordar o universo das igrejas neopentecostais em João Pessoa. Tudo isso é relatado em ‘O Rebeliado’, do cineasta e videasta Bertrand Lira. O vídeo, de 70 minutos de duração, foi captado em mini-DV e terá a segunda exibição pública na próxima terça-feira (17), a partir das 19h, na Estação Cabo Branco – Ciência, Cultura e Artes. A obra foi patrocinada pela Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope), através do Fundo Municipal de Cultura (FMC).

Antes mesmo de sair o edital do FMC, publicado em 2006, Bertrand Lira começou a arregaçar as mangas rumo à realização do documentário, que levou três anos e meio para ficar pronto. “Procurei expor a história de vida de um ser humano, seus percalços, sofrimentos, discriminações e violência que explicam uma atitude tão radical”, observou.

A história emblemática do personagem é utilizada para conduzir a discussão, que trata da proliferação das igrejas neopentecostais em João Pessoa. Uma característica desses templos, ressaltada no vídeo, é a crescente penetração nas camadas economicamente mais pobres da sociedade. Na retórica propagada pelos líderes religiosos está a intolerância às escolhas individuais, no que diz respeito à sexualidade.

Temas – O vídeo é dividido em blocos temáticos. Um deles diz respeito à infância de ‘Clóvis’, marcada pelo trabalho escravo nos canaviais da vila de Forte Velho, litoral da Paraíba. Os demais blocos fazem referência à mendicância no Rio de Janeiro; descoberta da sexualidade; conflitos com o padrasto; retorno ao estado natal, onde começa a vida como travesti; relação com a família; conflitos; sofrimento com novo estilo de viver; conversão à religião neopentecostal; casamento heterossexual; cotidiano como pastor da igreja, construída contígua à casa onde mora. Nesse último ponto, é enfatizado o trabalho do protagonista na conversão de gays, lésbicas e travestis.

Um ex-travesti e novo convertido, identificado como Adailton Batista, é quem apresenta ‘Clóvis’. Ao todo, são quatro personagens que tratam da recusa à homossexualidade, experimentada no passado recente. Outros depoentes abordam o envolvimento com drogas e crimes.

Fomento cultural – O Fundo Municipal de Cultura, que patrocinou ‘O Rebeliado’, é um elemento de fomento cultural instituído em 3 de dezembro de 2001 por intermédio da Lei nº. 9560. Foi regulamentado pelo Decreto nº. 4469, assinado em 7 de dezembro de 2001. No ano passado, o FMC inscreveu 182 projetos. Desses, 52 foram aprovados, representando a disponibilidade de financiamentos estimados em R$ 700 mil.

Equipe – A filmografia de Bertrand Lira inclui vários trabalhos, com participação e premiação em vários festivais nacionais de cinema e vídeo. Entre eles está, por exemplo, a direção, argumento e fotografia de ‘Crias de Piollin’ (2008, 53 min, mini-DV) e de ‘O Senhor do Engenho’ (2004, 16 min, DVCam); argumento, roteiro e assistente de direção de ‘Álbum da Memória’ (2000, 14 min, Betacam); direção e fotografia de ‘Vita Nostra’ 1993, 10 min, VHS), além de outros audiovisuais.

Fazem parte ainda da equipe técnica de ‘O Rebeliado’ (direção geral, direção de fotografia, argumento, roteiro, edição de Bertrand Lira) os seguintes profissionais: Heleno Bernardo (assistente de direção, produção executiva, som direto); Yorster Queiroga (edição). A trilha sonora adaptada é de Henrique Peixe, Daniel Mesquita e Daniel Pina.