Painel de Flávio Tavares compõe a Estação Ciência

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O fantástico extraído do real, em uma espécie de aventura encantada, mostrando em alegorias ricas a história da fundação da Capital e a conquista da Paraíba. É com esta receita e mais uma dose significativa de sensibilidade que o artista plástico Flávio Tavares conseguiu transplantar da pintura para o espectador valores como auto-estima e identidade cultural. O painel ‘O Reinado do Sol’, criado especialmente para compor a Estação Ciência, Cultura e Artes, ficará exposto permanentemente no hall de entrada do auditório.

“Ela sai do histórico para a fantasia. É uma alegoria. Pega do Cabo Branco, que representa o paraíso, onde o sol nasce, até o Varadouro, que é a reunião das etnias”, observou Tavares. “Há também uma mesa inspirada em Oswald de Andrade, que é o banquete da antropofagia. Faz referência ainda à ‘Jangada de Pedra’, de Saramago, representando a Península Ibérica que trouxe tudo de bom e também de ruim”, explicou.

Identidade – As diversas facetas da formação e da atualidade estão costuradas, como uma colcha de retalhos, alinhavando períodos, etnias, ideologias, crenças religiosas, folclores e tantos outros aspectos que constituem a identidade do povo local. A sensação de quem se vê pela primeira vez diante de ‘O Reinado do Sol’ é a de se olhar no espelho e reconhecer a própria face. A ligação de cada elemento termina por contar uma história em tintas.

Todo feito em óleo sobre tela, o mundo imaginoso de Flávio Tavares possui 9 metros de comprimento por 3 metros de altura. Para ser pintado, o artista precisou dividir o trabalho em cinco blocos. Ele levou cerca de dois meses para concluir a empreitada. “Mas o envolvimento mesmo com o trabalho foi maior, chegando a uns três”, comentou.

O painel em detalhes – Do lado esquerdo do painel, está retratada a praia do Cabo Branco, passando pelo Varadouro e lembrando, à direita, o Jacaré. No centro do quadro, Tavares pintou uma grande nau, atracada dentro da cidade, comandada por nada mais nada menos que Ariano Suassuna. Essa composição, segundo o artista, lembra a tradição dos velhos carnavais pessoenses – Nau Catarineta. Na parte central inferior do painel, há uma mesa com vários elementos que simbolizam a antropofagia como opção do povo digerir a própria cultura e história.

“Para mim é um momento muito significativo. Pessoas de todo País e do mundo vão visitar o Estação Ciência. O painel vai abrir muitas portas para a arte plástica paraibana. Fiz uma profusão de assuntos para dar margem à discussão da cultura da gente”, justificou Tavares.

Na parte superior central do quadro, reinando sobre todas as demais imagens, o artista compôs uma figura feminina, vestida de sol, que representa a criação. O mesmo céu que a sustenta nos primórdios da fundação da cidade, formado por figuras bíblicas do bem e o mal, termina por se fundir bem abaixo, com o contemporâneo Parque Solon de Lucena.

Só para citar outros exemplos simbólicos da obra, o escritor José Lins do Rêgo foi pintado como referência ao desenvolvimento da cana-de-açúcar. Enquanto isso, Augusto dos Anjos é um elemento que resgata a alma poética do passado. Manuel Caixa D’água, caminhando pela boemia, também compõe o cenário. A popular e folclórica ‘Vassoura’ (Isabel Bandeira), montada em seu conhecido cavalo branco, que tantas vezes povoou de irreverência o dia-a-dia dos pessoenses no século passado, também está presente.

Ciganos, sarracenos, negros, mouros, portugueses, espanhóis, índios, franceses, holandeses se propagam por todo painel. Alguns grupos estão em tamanhos diferentes e em situações fantasiosas. Esta é uma forma, segundo o artista, de distinguir os períodos da história e os ambientes.

Pode-se perceber ainda que o segundo plano do painel faz uma alusão geográfica ao quadro sobre a Bacia da Restinga, pintado pelo neerlandês Frans Post. Ele foi membro da esquadra do conde holandês Maurício de Nassau, que participou de uma comitiva pelo Nordeste do Brasil em meados do século XVII, registrando geografias e motivos brasileiros em desenhos e pinturas. É como se Tavares tivesse realmente redescoberto a cidade, porém desta vez como uma radiografia da identidade local.

O artista
– Flávio Roberto Tavares de Melo nasceu em João Pessoa em 15 de fevereiro de 1950. Desde criança mostrava profunda inclinação para o desenho e a pintura. Chegou a freqüentar o curso do já falecido artista Raul Córdula, nos Setor de Arte da UFPB.

Aos 18 anos, Tavares passou a absorver os ensinamentos do pintor e gravador Hermano José. Chegou a cursar Sociologia na UFPB. Porém, acabou abandonando para se dedicar em tempo integral ao ofício artístico. Aos 20 anos, já havia exposto em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

Tavares estudou pintura nas universidades de Yale, Connecticut e no Simon Rock College, todos nos Estados Unidos. Também fez o mesmo na Guiana Francesa. Em seguida, ingressou no mercado de arte da Alemanha. A partir daí, o artista participou de inúmeros e importantes exposições individuais e coletivas em grandes cidades do Brasil e do mundo.