Pesquisa vê 1.256 crianças em situação de rua na Capital

Por - em 46

A pesquisa ‘Crianças e Adolescentes em Situação de Rua na Cidade de João Pessoa’ – apresentada na manhã desta quarta-feira (19), durante o 1º Seminário para Construção do Plano de Combate ao Trabalho Infantil – identificou a presença de 1.256 crianças e adolescentes (de até 18 anos de idade) em 68 locais de 15 áreas da Capital, em situação de rua, e traçou o perfil desse público, a partir de entrevistas feitas com 1.134 meninos. O estudo, realizado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em parceria com a Prefeitura de João Pessoa (PMJP), concluiu que 74% deles eram trabalhadores infantis.

A coordenadora da pesquisa, Fátima Pereira, que é professora doutora da UFPB, explicou que a pesquisa foi feita durante três dias de dezembro de 2007, sob sua coordenação e com a participação de 16 educadores do Ruartes (programa da PMJP) e 70 pesquisadores, entre estudantes e profissionais da universidade. Segundo Fátima, dezembro é considerado um período atípico, porque o fluxo de crianças e adolescentes nas ruas aumenta por ser um período de início de férias escolares e festivo. “Queríamos ter repetido a pesquisa em abril passado, mas houve impedimento por este ter sido um ano eleitoral. Mas nossa intenção é repetí-la no início de 2009”, ponderou.

Trabalhando – Segundo Fátima Pereira, a pesquisa levou em consideração crianças e adolescentes de até 18 anos de idade, que ocupavam ruas, prédios e logradouros públicos em diversos bairros da cidade, e que passavam a maior parte do dia nas ruas, dormindo ou não nesses locais. Os pesquisadores encontraram meninos que estavam nas ruas em busca de renda, lazer, moradia, alimentação e repouso; com ou sem vínculo familiar; desacompanhados ou acompanhados de adultos, familiares ou responsáveis.

“Dos 1.134 entrevistados, 69% disseram que estavam na rua em busca de trabalho (o lazer veio em segundo lugar, com 16%, seguido de alimentação, 9%, e moradia, 2%), mas o número dos que estavam efetivamente trabalhando chegava a 74%. Isso mostra que mesmo o trabalho não sendo o objetivo de alguns, eles acabam enveredando nele e que a situação de rua e o trabalho infantil estão muito ligados”, disse. Dos que trabalhavam, 25,7% eram vendedores e 13,8% fretistas, seguidos de olheiros, catadores de materiais recicláveis e feirantes.

Na escola – A pesquisadora destacou, ainda, que 69,4% dos meninos em situação de rua disseram que estavam na escola, 19% falaram que não estudavam e o restante não respondeu. A maioria ainda estava no ensino fundamental, confirmando o fato de que que trabalhadores infantis geralmente têm defasagem escolar. “Isso mostra o que a última Pnad (Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílios), divulgada este ano já tinha mostrado: a escola não está efetivamente servindo para combater o trabalho infantil, nem significa necessariamente aprendizado”, disse.

O estudo mostrou, também, que 62,4% dos meninos encontrados nas ruas de João Pessoa eram nascidos em João Pessoa e 37 haviam migrado de outros municípios. Segundo o estudo, 81,8% eram do sexo masculino. “Esse dado tem uma explicação e não significa que as meninas estão muito mais livres da ameaça do trabalho infantil. Elas estão sendo exploradas no trabalho doméstico. Nos últimos anos, percebemos que houve uma queda do número de trabalhadores infantis, que depois aumentou e novamente caiu (atualmente 11,3% das crianças e adolescentes na Paraíba trabalham), mas que as piores formas de trabalho infantil continuam”, conclui Fátima Pereira.

Seminário – O 1º Seminário para Construção do Plano Municipal de Enfrentamento ao Trabalho Infantil é uma realização do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA-JP), da Prefeitura de João Pessoa e da Comissão Municipal do Peti e conta com o apoio do Banco do Brasil e do Sebrae. A pesquisa sobre crianças em situação de rua servirá como uma das bases para elaboração desse plano. Durante o evento, também foi analisada a rede de equipamentos institucionais de atendimento a crianças e adolescentes do município. O plano deverá ser elaborado a partir dessas duas análises.

O seminário foi aberto na manhã desta quarta-feira, no auditório do Sebrae, com as presenças do secretário do Desenvolvimento social, Alexandre Urquiza; da representante do CMDCA, Waleska Ramalho; da presidente do Conselho Estadual de Diretos, Rose Veloso e da presidente do Fórum dos Direitos da Criança e do Adolescente, Joseana da Silva. O evento contou com a participação de vários adolescentes atendidos pelo Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), de representantes de outros órgãos de defesa da criança e adolescentes e da sociedade civil organizada.