PMJP devolve espaço público revitalizado para os pessoenses

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Você já se imaginou no centro da Praça Vidal de Negreiros, conhecida popularmente como ‘Ponto de Cem Réis”, localizada no ‘coração’ de João Pessoa, dando um giro de 360 graus e vendo a história da cidade se passar diante dos seus olhos? Até bem pouco tempo isso era impossível devido ao desordenamento do espaço, que estava completamente abandonado. Mas hoje, nove décadas depois do surgimento do local, datado de 1924, a Praça ganhou ares realmente de espaço público livre, destinada, inclusive, à contemplação.

A obra foi executada pela Prefeitura de João Pessoa (PMJP), com projeto da equipe de arquitetos da Secretaria de Planejamento (Seplan) formada por Amaro Muniz Castro, Ângela Nunes e Jonas Bezerra, e executado pela Secretaria de Infraestrutura (Seinfra). “O atual governo quis devolver à praça um caráter de um grande espaço livre no centro. As pessoas podem cruzá-la a pé e ir às áreas importantes da cidade, sem interferências. É o estimulo às vivências nos espaços públicos”, ressaltou o arquiteto Amaro Muniz.

O projeto consta de uma imensa área livre de aproximadamente 5.214 metros quadrados, organizado com um conjunto de bancos de concreto, luminárias cobertas por uma estrutura metálica em forma de pirâmide e postes. O lugar ainda ganhou um projeto paisagístico, com a colocação de uma vegetação funcional. A revitalização do espaço público também preservou o busto Vidal de Negreiros, que foi restaurado e valorizado com um novo pedestal em granito. A praça ainda vai ganhar uma estátua, em tamanho original, do compositor Livardo Alves, considerado um dos admiradores do Ponto de Cem Réis. “O nosso projeto primou em fazer uma correção no desenho urbano, eliminando a fragmentação e o desnivelamento do piso que existiam naquele espaço e impossibilitava, de forma harmônica, a circulação das pessoas. Agora, todo o espaço será um só”, definiu Amaro.

O viaduto Damásio Franca também passou por modificações, dentro do projeto de revitalização do Ponto de Cem Réis. A Seinfra instalou 30 refletores com potentes lâmpadas de 400 watts, cada uma, que irão facilitar o tráfego dos veículos que vêm do Varadouro em direção à rua padre Meira. Otimizando os espaçõs, a Seinfra construiu um depósito onde ficarão materiais e equipamentos de limpeza utilizados pelos agentes da Emlur.

História – Ao longo da história, o ‘Ponto de Cem Réis’ se firmou como um espaço de encontros, mobilizações e eventos, onde os pessoenses discutiam uma variedades de assuntos. O local é rodeado por ruas e edificações antigas, a exemplo do casario que pertenceu à família dos Ávila Lins, o Paraíba Palace Hotel, o antigo prédio das Nações Unidas e do Ipase, Edifícios Régis e Duarte da Silveira – ambos símbolos do movimento moderno no Estado – , e pelas ruas Visconde de Pelotas e Duque de Caxias, entre outras. Os prédios relembram, na sua arquitetura, a evolução da capital da Paraíba, além de serem símbolos de riqueza e elegância da sociedade da época.

O local aparece no contexto social de João Pessoa na década de 1910, quando começou a haver a confluência de três linhas de bondes elétricos, que serviam à população interligando os bairros do Varadouro, Trincheiras e Tambiá. Devido à atividade desenvolvida, a praça começou a ser chamada de ‘Ponto de Cem Réis’ por causa do hábito dos condutores do bonde de gritar o valor das passagens. “A praça era um grande espaço onde os bondes vinham e faziam a manobra para seguir em direção à praia, já que o local interligava a cidade baixa e a orla. Lá existia um café, uma floricultora e um relógio que fica ao centro, que posteriormente foram demolidos”, explicou Amaro.

De acordo com informações históricas, o espaço passou por apenas três intervenções dos poderes públicos. Porém, estas eram apenas para demolição ou construção de alguns prédios e monumentos. A mais significativa foi na década de 70, quando o então prefeito Damásio Franca construiu um viaduto que passou a interligar a cidade baixa ao centro. O projeto foi do arquiteto Mário Di Láscio. “Meu pai tinha uma visão de futuro. Na viagem de um assessor à Europa, ele trouxe um postal com a obra de um viaduto. Após ouvir a população e alguns auxiliares, ele colocou o projeto em execução. Foi uma obra de solução, não de vaidade, onde até hoje traz benefícios”, denominou Roberto Franca, filho do ex-prefeito.

Roberto Franca se demonstrou bastante feliz com a revitalização do Ponto de Cem Réis, que desde a obra de seu pai estava em estado de depredação, servindo, inclusive, como ponto de consumo de droga. “O local estava abandonado, uma escuridão imensa. Tenho certeza que com essa obra vai devolver o aspecto social e o retorno cultural do local. Meu pai sempre dizia, ‘não levando o dinheiro público para casa, dá’, palavras que o atual prefeito diz com muito orgulho. Por isso foi possível realizar esta obra”, enfatizou Roberto.

Uma homenagem que a Prefeitura de João Pessoa irá fazer no novo espaço público é ao compositor Livardo Alves, considerado por muitos frequentadores do local como ‘o prefeito do Ponto de Cem Réis’. De acordo com a família, Livardo, que morreu aos 66 anos, visitava a praça todo o final de tarde, onde tinha muitos amigos. “Eu sonhava em uma homenagem em grande estilo para meu pai. E inclusive, eu sonhei que essa seria no Ponto de Cem Réis, local que ele era apaixonado. Quando recebi a notícia, nem acreditei, pois aquela praça significava muito para ele. Para se ter idéia, quando meu pai morreu, fiquei muito tempo sem passar por lá, pois eu via a imagem dele sentado e conversando com as pessoas. Muitos amigos chamavam ele de prefeito do Ponto de Cem Réis”, relembrou Larry Márcio Alves, filho do compositor.

A escultura em bronze e confeccionada em tamanho original foi ‘desenhada’ pelas mãos do escultor pernambucano Jurandir Maciel. “Me emocionei muito quando fui ao estúdio do escultor ver a peça, para conferir alguns detalhes. Ficou perfeita. Estamos muitos satisfeitos com essa homenagem da prefeitura”, comentou a viúva Maria Nita Vieira Alves. Como não poderia ser diferente, toda a família de Livardo Alves confirmou presença na reinauguração da Praça Vidal de Negreiros. Se a emoção deixar, como mesmo frisou Larry Alves, o filho vai recitar um poema feito por ele em homenagem ao pai. O título não poderia ser diferente: ‘Está faltando um pedaço no Ponto de Cem Réis’.

LIVARDO ALVES

O compositor Livardo Alves morreu no dia 16 de fevereiro de 2002, quando trabalhava em seu mais novo albúm ‘Malandro do Morro’. Casado com Maria Nita Vieira Alves, deixou 5 filhos, 13 netos e 5 bisnetos. Sua história esteve entrelaçada com a do Ponto de Cem Réis desde os 15 anos, quando começou a trabalhar nas oficinas do jornal A União (atual Assembléia Legislativa), na década de 1950, no auge do governo de José Américo. Depois assumiria as funções de revisor e redator. Mas o talento como cantor os pessoenses só descobriram em 1959, quando ele foi convidado a integrar a equipe da Rádio Tabajara, compondo o trio ‘Mensageiros Melódicos’, com o irmão Leonardo Alves e o amigo Agápio Vieira.

Como compositor, ele criou músicas inspiradas em situações do cotidiano, como a antológica “Marcha da Cueca”, surgida no Bar do Rufino, na Rua 1º de Maio, em Jaguaribe, baseada em engraçadíssimo episódio. Livardo foi autor de muitos sucessos. Destaque no cenário da música brasileira, compôs forrós, sambas, baiões, maracatus, cocos, repentes e xaxados. Vencedor de dezenas de festivais na Paraíba e em outros Estados, considerava como mais significativo o ‘Composição de Ouro ABC’, primeiro realizado em nível nacional na Paraíba, vencedor com o samba bossanovista “Pela Primeira Vez”.

Também compôs para peças teatrais, como “O Auto da Compadecida” e “A Pedra do Reino”, de Ariano Suassuana, e “A Chegada de Lampião ao Inferno”, de Luís Mendonça. De um humor autêntico, dizia não vislumbrar o sucesso. Livardo Alves deixou dezenas de composições gravadas, muitos admirados e amigos na praça que diziam que ele era prefeito do local.