‘Quadro Antiquo’ faz concerto no Centro São Francisco

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Uma revisita à produção musical brasileira dos séculos XIX e XX, seguindo pela modinha e lundu, até chegar aos seresteiros e ao gênero canção. A tudo isso, acrescenta-se a escrita polifônica e barroca de Johann Sebastian Bach. O resultado é o concerto do quarteto Quadro Antiquo, do Rio de Janeiro, em homenagem ao maestro Heitor Villa-Lobos, pela passagem dos 50 anos de morte do compositor. O evento acontece nesta sexta-feira (13), a partir das 19h, no Centro Cultural São Francisco. A iniciativa faz parte do projeto itinerante Música no Museu, patrocinado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), premiado nacional e internacionalmente. Na Capital paraibana, o programa tem apoio da Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope).

A coordenadora geral do Quadro Antiquo, Kristina Augustin, que também é uma das integrantes, destacou a identidade existente entre a Paraíba e a música erudita. “É sempre um prazer se apresentar em João Pessoa. Existe um público de boa qualidade, educado, que compreende a música erudita. Por isso existe um intercâmbio”, observou.

O programa começa com uma seleção de modinhas do século XIX, relacionadas à aristocracia da época, presentes em saraus familiares e nos teatros, tanto em Lisboa (Portugal) como no Brasil. Durante quase um século, predominou como música de salão e era predileta entre compositores dos dois países. O quarteto também fará referência ao lundu (ou lundum), que tem origem no batuque africano, dançado aos pares, com um “ar” de sensualidade. Às vezes era cantando, trazendo um texto bem humorado por malícias. Naquele tempo, este gênero se estabeleceu paralelamente às tendências musicais burguesas.

Fazem parte do repertório, por exemplo, ‘Os teus olhos e os meus olhos’, de Antonio Leal Moreira (1758 – 1819); ‘Cuidados Tristes cuidados’, de Marcos Portugal (1762 – 1830) e ‘Lundum’, um instrumental anônimo. Depois de mostrar todo esse panorama, o concerto histórico-musical chegam à atmosfera do nascimento de Villa-Lobos. Na época, em 1887, a modinha já havia se transformado. O piano, por exemplo, tinha sido substituído pelo violão, saindo dos salões e ganhando as ruas nas mãos dos seresteiros, em direção ao gênero conhecido como canção.

A viagem por timbres, textos, ritmos e sentimentos, comandada pelo Quadro Antiquo, culmina com a execução das composições de Heitor Villa-Lobos. As peças sempre influenciadas pela música de seresta, utilizam-se também de gêneros como a modinha e o lundu, bebendo ainda do erudito barroco. Nesse momento será apresentada ao público algumas obras do autor, como ‘Melodia Sentimental’ (Floresta do Amazonas, 1958, com poesia de Dora Vasconcellos), Choro nº 1, Bachianas Nº5 entre outras criações.

Quem for ao Centro Cultural São Francisco na noite desta sexta-feira perceberá que a viola da gamba, flautas, percussão, violão, alaúde e viruella que vão misturar as raízes musicais brasileiras ao charme do barroco clássico. Os solistas e cameristas do Quadro Antíquo têm como proposta fazer uma releitura cuidadosa do repertório de Villa-Lobos, com arranjos que valorizam as peças, sem perder de vista a essência dos sentimentos expressos pelos timbres e ritmos do maestro e compositor brasileiro.

Música no Museu – Durante 11 anos de existência, o projeto Música no Museu já realizou concertos eruditos para mais de 250 mil espectadores do país e do mundo. A iniciativa também recebeu vários prêmios, a exemplo do ‘Golfinho de Ouro’, do Governo do Rio de Janeiro, ‘Cultura Nota 10’, da Unesco, e ‘Urbanidades’, do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). Em 2008, foi contemplado com a maior honraria da cultura brasileira – a Ordem do Mérito Cultural – por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A meta principal do programa foi cumprida e a iniciativa inovou a temporada de música clássica e erudita no Brasil, com concertos realizados de janeiro a dezembro, que acontecem nos museus de maior expressão nacional. Uma vez conquistada esta fase, o programa extrapolou a fronteira “verde e amarela”. Em 2005, a versão internacional do projeto chegou a Paris, nas comemorações do Ano Brasil-França. No ano passado, cumpriu turnês em cidades de Portugal, República Tcheca, EUA e Alemanha.

No último dia 9 de janeiro foi aberta a edição ‘2009, Ano Villa Lobos’ do programa. A cerimônia aconteceu no Rio de Janeiro. Agora em março, serão 48 concertos, incluindo a turnê Norte-Nordeste, onde a capital paraibana foi uma das escolhidas para sediar o evento. Além do Quadro Antiquo outros grupos estão engajados na iniciativa, como o Quarteto Colonial e o Trio Mauro Senise. A realização é do Seminário de Música Proarte, com produção da Carpex Empreendimentos. No Nordeste, a co-produção é da Mecatron, sediada em Recife (PE).

Quadro Antiquo – Kristina Augustin (viola da gamba e flautas), Mário Orlando (viola da gamba), Sonia Leal Wegenast (voz e percussão) e Rosimary Passa (violão, alaúde, viruella) formam o Quadro Antiquo. Todos são especializados na música dos séculos XVI e XVII. O grupo foi formado em 2006 e é sediado na cidade de Niterói (RJ). Os instrumentos utilizados são variados, de acordo com o programa a ser executado.

Em março de 2007, o Quadro Antiquo encampou no programa Versus Cantados. A iniciativa reunia o trabalho de cancioneiros ibéricos do século XVI. Juntos, os integrantes fizeram turnê por sete municípios nordestinos. Depois, em julho do mesmo ano, seguiram em apresentações pelo restante do País, em cidades mineiras, a exemplo de Belo Horizonte, Tiradentes, São João Del Rey e Barbacena. Os concertos aconteceram ainda em Niterói e Rio de Janeiro. O resultado foi a gravação de um álbum, que levou o mesmo título do projeto.

No ano passado, o grupo participou das comemorações dos 200 anos da presença da família real portuguesa no Brasil. Os concertos aconteceram no Rio de Janeiro. O mesmo programa levou o quarteto a várias cidades da Europa.

Villa Lobos – Nascido em 5 de março de 1887, no Rio de Janeiro (RJ), Heitor Villa-Lobos começou a receber instrução musical aos seis anos de idade. Logo cedo, foi apresentado pela tia aos movimentos de prelúdios e fugas do cravo bem temperado, que compõem as peças de J.S.Bach.

Para compor as obras, Villa Lobos fez viagens ao interior do Brasil, pesquisando o folclore e entrando em contato com modas caipiras, tocadores de viola e outras manifestações. Em 1915, apresenta-se oficialmente como compositor. Ganhou a Europa em 1923. Criou o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico em 1942. No dia 17 de novembro de 1959, faleceu de câncer na mesma cidade onde nasceu.